Tensão aumenta no 11º dia de greve contra a reforma da Previdência na França

Passageiros esperam por trem na estação de trem Gare du Nord, em Paris, no sábado, no 10º dia de greve contra os planos de reforma da previdência (Foto: Reuters)

PARIS – A tensão aumentou neste domingo, 15, na França entre o governo e os principais críticos do projeto de reforma previdenciária, no 11º dia de uma greve nos transportes e na véspera de um novo dia de manifestações.

Nesta manhã a situação continuava complicada nos transportes. E o debate sobre a Previdência parece paralisado pela situação do arquiteto da reforma, o alto comissário Jean-Paul Delevoye.

Delevoye está numa posição complicada por suspeita de conflitos de interesse com o setor da previdência privada, após omissões em sua “declaração de renda”, um documento que os membros do governo devem apresentar junto a uma autoridade que examina o patrimônio e as atividades de figuras públicas.

Delevoye corrigiu este documento no sábado e declarou 13 pagamentos provenientes de várias organizações, de acordo com o jornal Le Monde.

Nos últimos dias, ele foi fortemente criticado por ter exercido dois mandatos no grupo de formação IGS e num think-tank sobre seguros, trabalhos pelos quais recebeu dezenas de milhares de euros. Ele evocou um erro e prometeu devolver parte do dinheiro, uma vez que a Constituição francesa proíbe acumular uma função governamental e outra atividade profissional.

Ele recebeu no sábado o apoio do primeiro-ministro Edouard Philippe, que disse estar convencido de sua “boa-fé”, afastando a incerteza que pairava sobre uma possível renúncia.

Cada vez mais preocupado com a situação dos transportes, o chefe de governo criticou severamente os grevistas, que estão causando sérios distúrbios nos trens e no transporte urbano.

Sem trégua de Natal

“O Natal é uma época importante. Todos terão que assumir responsabilidades. Não acho que os franceses aceitem que algumas pessoas possam privá-los desse momento”, disse ao jornal Le Parisien.

Os funcionários ferroviários em greve já anunciaram que não preveem uma “trégua” para as festas de final de ano.

“Se o governo deseja que o conflito termine antes das festas, tem uma semana inteira para tomar a decisão necessária: a retirada da reforma”, disse Laurent Brun, secretário-geral do CGT-Cheminots, principal sindicato de funcionários da empresa ferroviária SNCF.

O maior sindicato francês, o CFDT, que manteve uma posição moderada no início do conflito, juntou-se à mobilização contra o projeto do governo na quarta-feira após o anúncio do estabelecimento de uma “idade de equilíbrio” para a aposentadoria de 64 anos. Abaixo desta idade a pessoa não receberá aposentadoria integral.

Atualmente, a idade para aposentadoria integral é de 62 anos.

“É muito simples: para que o CFDT olhe novamente para o projeto, o governo deve concordar em retirar a idade de equilíbrio”, disse o secretário-geral do CFDT, Laurent Berger.

A posição do CFDT é crucial, por ser o único do país que não se opõe ao principal capítulo da reforma, a saber, a substituição dos 42 regimes especiais existentes na França por um esquema universal de pontos.

O tráfego permanecerá perturbado neste domingo e na segunda-feira, com um quarto dos trens de alta velocidade e um terço dos trens regionais paralisados, além de quase todas as linhas de metrô fechadas em Paris.

A opinião pública parece ser favorável a este movimento. De acordo com uma pesquisa Ifop para o JDD, 54% dos franceses apoiam a greve e 30% são hostis.