Salgueiro sacode a Marquês de Sapucaí com desfile clamando por justiça

(Foto: Globo)

RIO DE JANEIRO – Com um desfile dedicado a Xangô, divindade afro-brasileira representando a justiça e clamando pelo fim da impunidade e da discriminação contra as minorias, a Acadêmicos do Salgueiro sacudiu no domingo, primeiro dia de desfiles do Grupo Especial, o Sambódromo do Rio de Janeiro e surge como uma das favoritas ao título deste ano.

A apresentação da vermelha e branca da Tijuca, bairro da Zona Norte do Rio, dedicada ao “deus que trouxe justiça da África até o Brasil” surpreendeu por seu samba pegajoso, entoado pelo público, e pelo esplendor e colorido das fantasias e carros alegóricos.

Porém, o que mais emocionou aos 72,5 mil espectadores da Marquês de Sapucaí foram as referências ao fim de crimes como corrupção, lavagem de dinheiro e abuso de políticos, em um país sacudido nos últimos anos por vários escândalos deste tipo.

No final do desfile, carregando suas respectivas bandeiras, ativistas de grupos que defendem as minorias, como homossexuais, mulheres, negros e índios, pediram o fim de toda discriminação.

A Imperatriz Leopoldinense também abordou um tema semelhante se referindo aos males gerados pelo dinheiro, como ambição, desigualdade, corrupção e consumismo, em um desfile aberto por um Robin Hood que luta contra as injustiças sociais.

Já a Beija-Flor de Nilópolis, que luta pelo bicampeonato, recriou os destaques de seus desfiles em 70 anos de história, principalmente com ênfase em duas apresentações nas quais também fez alusões às desigualdades no Brasil: “Ratos e Urubus, Larguem a Minha Fantasia” de 1989 e “O povo conta a sua história: Saco vazio não para em pé – A mão que faz a guerra, faz a paz”, com o qual ganhou o carnaval de 2003.

A Viradouro, do carnavalesco Paulo Barros, encenou no Sambódromo as fantasias que povoaram a imaginação de adultos e crianças tanto na antiguidade como nos tempos modernos, desde duendes, bruxas e múmias, até sucessos recentes do cinema, como o Motoqueiro Fantasma e Piratas do Caribe.

Mas se a escola de Niterói apelou para carros alegóricos espetaculares e fantasias coloridas, a Império Serrano preferiu buscar a empatia com o público em um desfile no qual levou à Marquês de Sapucaí uma das canções mais populares do Brasil.

Usando como fundo musical a conhecida canção “O Que É, o Que É?”, de Gonzaguinha, a tradicional escola de Madureira exibiu no Sambódromo todo um questionamento sobre a vida, para concluir que é melhor deixar de tentar decifrá-la para poder aproveitá-la.

Já a Grande Rio, escola de Duque de Caxias, foi a terceira a entrar na avenida na primeira noite de desfiles, e apresentou um enredo descontraído sobre a falta de educação das pessoas no cotidiano.

A escola, que foi a penúltima colocada no ano passado por problemas em um carro alegórico e não foi rebaixada por decisão da Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa), abordou questões como os maus hábitos das pessoas no trânsito, nas redes sociais, nas cidades e no meio ambiente, apostando na tecnologia com a utilização de drones na comissão de frente.

A Unidos da Tijuca, por sua vez, encerrou a noite com o dia já amanhecendo e contou a história do pão como alimento físico e espiritual, uma espécie de fio condutor da humanidade.

A escola tijucana apresentou o tradicional alimento como parte importante de grandes episódios da história, como as revoluções Francesa e Russa, em um desfile no qual se destacaram alegorias sobre a escravidão, A Última Ceia e o Império Romano.

Na noite desta segunda-feira, mais sete escolas completarão o desfile do Grupo Especial. A grande campeã será conhecida na tarde da próxima quarta-feira.