Relatório revela que escolas de Boston compartilham informações de alunos com o ICE

BOSTON – Organizações de Direitos Civis e Educação em Massachusetts denunciaram nesta segunda-feira, 6, que o Sistema de Escolas Públicas de Boston (BPS) tem “um esquema intenso de compartilhamento de informações de estudantes com as autoridades federais de imigração”.

Segundo o comunicado, desde 2014 dados de pelo menos 135 alunos foram entregues ao Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas (ICE) através do Centro Regional de Inteligência de Boston (BRIC), um órgão de compartilhamento de informações entre autoridades locais, estaduais e federais.

O Centro para Lei e Educação (CLE) teve acesso aos números após entrar com um processo na Justiça contra a Prefeitura de Boston em junho de 2018.

Segundo Janelle Dempsey, da Advogados para Direitos Civis de Boston (LCR), que também faz parte da ação judicial,  os documentos recém divulgados sugerem um “conluio” alarmante entre o BPS e as autoridades federais de imigração. “O BPS está criando um canal perigoso de escola para deportação que deve ser interrompido imediatamente”, enfatiza a advogada.

A revisão de relatórios de incidentes entre os alunos entre 2014 e 2017 indicam que oficiais das escolas mandaram para o BRIC casos não violentos como grafitagem e distúrbios.

O BPS afirma que revisou a regra sobre como compartilhar as ocorrências com o órgão de inteligência em março de 2018 e garante que o distrito oferece “apoio inabalável” para estudantes imigrantes. O departamento destaca que “só divide dados dos alunos em circunstâncias de uma investigação criminal ou para garantir a segurança pública”.

“Nós não dividimos qualquer informação com as autoridades federais”, disse a superintendente de Educação, Brenda Cassellius, em entrevista à Rádio Pública de Boston (WBUR). “Nós já tomamos providências para oferecer um ambiente seguro para as nossas crianças e asseguramos que as suas informações não são compartilhadas”.

O Departamento de Polícia de Boston, que gerencia o BRIC em parceria com a prefeitura, também defende que informações não são automaticamente repassadas para as autoridades federais.

Essa afirmativa foi confirmada pelo prefeito Marty Walsh que garantiu que o status imigratório não é incluído nos relatórios e apenas casos graves são direcionados para o BRIC.

Já a vereadora Julia Mejia, primeira latina a representar a cidade, disse que a troca de informações entre escolas e autoridades federais quebra a relação de confiança entre a cidade e a comunidade. Ela assumiu o compromisso de “monitorar de perto essa prática a partir de agora”.

Origem

O processo movido pela LCR teve origem após o ICE prender  em 2016 um estudante da East Boston High School, em Boston, meses depois que o jovem entrou desacompanhado nos Estados Unidos.

Segundo o relatório da escola compartilhado com as autoridades federais, o jovem, na época com 17 anos e sem registro criminal, teria se envolvido em uma discussão e o documento o descrevia como um membro da gangue MS-13, o que mais tarde não foi confirmado.

O jovem, que vivia com o pai em Boston após ser abandonado pela mãe em El Salvador, foi detido pelo ICE nove meses após o incidente na escola e ficou em um Centro de Detenção da agência por mais de um ano antes de ser extraditado no início de 2018.

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