Mulheres superam obstáculos e conquistam destaque entre brasileiros nos EUA

Mulheres somam 55% da comunidade brasileira nos EUA (Foto: Ilustração)

BOSTON – Retratar o perfil das mulheres nos Estados Unidos não é tarefa fácial. Elas representam mais da metade dos brasileiros no país, atuam em diversas áreas do mercado e ocupam papel de destaque na sociedade.

Segundo o último levantamento da American Community Survey, as mulheres somam 55% da comunidade brasileira e já fizeram história ao transformar o estereótipo de subemprego no setor de limpeza em uma indústria próspera.

Elas também conquistaram espaço na política. Margareth Shepard, uma ex-housecleaner, se tornou no ano passado a primeira pessoa nascida no Brasil a um cargo legislativo nos EUA ao assumir uma cadeira na Câmara de Vereadores de Framingham, em Massachusetts.

E isso é resultado de uma luta que deu os primeiros passos há mais 25 anos quando as mulheres começaram a se organizar através de reuniões para ajudarem umas às outras como o Grupo Mulher Brasileira, parte importante da história do ativismo imigrante no país.

Em mais uma conquista, se tornaram referência na arte. Edel Holz desbravou há mais de dez anos o caminho da arte e é chamada de “dama do teatro brasileiro em Boston”, enquanto Ana Borges canta e encanta o país com a música brasileira.

E se superação é substantivo feminino, a assistente legal Marinalva Harris tem de sobra. Ela atua na área jurídica ainda dominada por homens nos EUA, onde as juízas, por exemplo, somam apenas 34% nos tribunais federais.

Para vencer, Marinalva usa de um artifício: a competência. “Conquistei o respeito dos meus clientes através do meu trabalho. Mas alguns já me contaram de outros profissionais que insinuaram que eles deveriam pensar bem se queriam que uma mulher cuidasse do caso deles”, relata.

Marinalva aposta na competência para superar obstáculos (Foto: Arquivo Pessoal)

Há mais de dez anos no setor, Marinalva acredita que o conhecimento vence a discriminação. “Quando você busca se especializar na sua área, você vence. Mas tem que haver iniciativa, nada cai do céu”.

O caminho até lá é duro, depende de sacrifícios e da colaboração da família. “Até hoje a minha filha mais nova me cobra mais atenção e me repreende quando estou de férias, por exemplo, e atendo o telefonema de um cliente. É difícil separar a vida profissional da pessoal e você depende da parceria da família para dar conta do recado”, admite.

Mulher também é sinônimo de esforço. Quem conhece a oftalmologista Roberta Feraco, da Eye Focus Care, em Saugus, nem imagina que a mãe dela trabalhava em limpeza nos Estados Unidos para que a filha se formasse em medicina no Brasil.

O empenho valeu à pena. Logo após a formatura, Roberta se mudou para Massachusetts para fazer especialização em glaucoma. Durante o período de estudo ajudou a mãe na limpeza e trabalhou de garçonete.

Roberta se tornou a médica dos brasileiros em Massachusetts (Foto: EyeFocusCare Facebook)

Hoje, ela é chamada de médica dos brasileiros e se sente especial por isso. “É gratificante. Noventa por cento dos meus pacientes são brasileiros e eles dizem, mesmo os que falam inglês, como é bom ser atendido por mim. Somos brasileiros, gostamos de conversar. Isso não funciona com os americanos”, observa.

O relacionamento no consultório transforma pacientes em amigos e a imigrante experiente aconselha quem chega a buscar os seus sonhos. “Sempre incentivo as pessoas a tentarem meios de exercer a sua profissão aqui”, afirma a doutora no assunto.

E se é superar obstáculos que se fala, as estatísticas do empreendedorismo não mentem. Um levantamento do American Express Global Commercial Services revela que as empresas sob o comando feminino renderam mais de $1 milhão em 2018, cresceram 46% na última década e representam 12% de todos os negócios em solo norte-americano.

Cinthia, Vania e Leila formaram o trio do sucesso

E claro que o “instinto feminino” brasileiro para o negócio contribui para esses números. Cinthia Anet, Leila Alves e Vania Madalozzo, do The Fashion Lounge, em Orlando, na Flórida, transformaram o desafio de empreender em um verdadeiro happy hour.

“A ideia nasceu de uma conversa com a Leila em um evento. Ela disse que estava procurando um espaço para dividir com a Vania e me convidou.

Eu achei que tinha tudo a ver reunir moda fitness e casual com semijoias. Deu muito certo. Temos um lugar apaixonante”, conta Cinthia. O The Fashion Lounge, além de comportar as lojas, se transformou no ponto de encontro para eventos mensais de moda, beleza e saúde.

Segredo do sucesso? A resposta é unânime: não tem. O resultado vem de muito trabalho. “Nada vem da inércia e até errar é importante para acertar na próxima. As pessoas tendem a reclamar demais, faça com que aconteça”, aconselha Cinthia.