Mobilização em busca de rim pode salvar vida de brasileira

Idalia corre contra o tempo para encontrar um doador (Foto: BM News)

ORLANDO/ FRAMINGHAM – As brasileiras Idalia Nesdahl e Valeria Fastald não se conhecem mas são personagens de um drama que atinge cada vez mais pessoas nos Estados Unidos. As duas nasceram com rins policísticos que podem levar à falência do órgão e, consequentemente, gerar a necessidade de um transplante para conquistar uma vida normal e com qualidade.

Segundo a Associação Nacional de Transplantes, 112.927 pessoas esperam na fila por um transplante de órgão nos Estados Unidos. Oitenta e dois por cento estão à espera de um rim e a lista cresce a cada 10 minutos em uma fila de espera que pode durar dois anos ou chegar a 10 quando depende de um doador morto.

Em junho, Idalia passou a fazer parte dessa estatística após ser alertada que um dos seus rins trabalha com apenas 11% da capacidade. “Se o meu outro rim também não fosse doente, eu conseguiria viver normalmente porque a gente só precisa de um”, comenta.

O problema renal da paulistana se agravou há quatro anos quando teve uma doença cardíaca. Ainda no Brasil, ela recebeu o diagnóstico que teria que fazer hemodiálise mas, meses depois, ao se mudar para a Flórida, a necessidade foi descartada.

Desde então, Idália leva uma vida controlada por remédios e alimentação limitada. Mas não há tratamento para inibir o crescimento e desenvolvimento de cistos que formam bolhas de água no rim.

“Agora não tem jeito. Vou ter que fazer hemodiálise”, conta. Esse tratamento sempre aterrorizou Idalia que já passou por um treinamento, sessões com assistente social e prepara a sua casa para estocar a medicação para filtrar o sangue durante um procedimento de 10 horas que deverá ser realizado todas as noites. 

A dona de um SPA para animais de estimação em Orlando, na Flórida, diz que não quer ficar triste. “Eu confio em Deus. Confio que os médicos vão me curar e que vai aparecer um doador”, diz.

Na verdade, Idalia  já recebeu a oferta de uma cliente. “Ela me pegou em um dia de desânimo e acabei contando o que estava acontecendo. Ela disse que o marido dela passou pela mesma situação e ela seria a minha doadora.”

Daniele, que preferiu omitir o último nome, já se cadastrou para passar pelos exames de compatibilidade sanguínea e saber se pode ser a doadora. “Fiz o meu cadastro e espero, de verdade, que eu possa ser a doadora. Após o transplante do meu marido há seis anos, eu disse que doaria se alguém perto de mim precisasse”, conta ela. “No caso da minha família o processo foi muito rápido, o meu cunhado foi o doador. Eu sei como tudo funciona. Não tem perigo e é tão importante para quem recebe”, acrescenta. 

Em casos de transplante, os parentes sempre são os doadores mais compatíveis, mas os filhos de Idália, Eduardo, 32, e José Victor, 24, também têm rins policísticos e não podem se candidatar.  

Marcia, da People Who Can Make a Difference, vai ajudar a coordenar e esclarecer dúvidas de possíveis doadores (Foto: BM News)

A linha de parentesco amplia ainda a busca por doadores na comunidade brasileira e, por isso, a People Who Make a Diference coordena uma campanha para encontrar um doador compatível. “A nossa intenção é encontrar um doador para a Idalia e esclarecer as dúvidas sobre doação em vida. A gente pode ajudar muito mais que uma pessoa”, destaca Marcia Romero, presidente da fundação.

Solidariedade

E Valeria, do outro lado do país, em Framingham (Massachusetts), é a prova  de que a comunidade faz toda a diferença na hora de encontrar um doador. A busca durou um ano e ela encontrou 12 possíveis doadores, quatro compatíveis.  “É importante ter várias opções porque os candidatos passam por uma bateria de exames e têm todo o direito de desistir no último minuto”.

Ela conta que “duas pessoas foram compatíveis, mas não tiveram coragem de prosseguir”. “Eu entendo que não é uma decisão fácil, mas é importante dizer que os hospitais não permitem a doação mediante a mínima chance de você adoecer no futuro. A minha terceira doadora compatível tem a probabilidade de desenvolver diabetes e os médicos a dispensaram”, destaca.

O nefrologista Marcos Vieira, da Fundação Pró-Rim do Brasil, confirma a observação de Valéria de que a doação do órgão é segura. “Ao doar um rim, o organismo irá rapidamente se adaptar à nova realidade. Isso quer dizer que apenas um rim fará a função dos dois e isso é perfeitamente possível.”

Heróis

Os doadores se tornam verdadeiros heróis numa corrida contra o tempo. Cerca de 12 pessoas morrem por dia na fila de transplante de rim só nos Estados Unidos, de acordo com a American Kidney Fund. Os números podem ser ainda mais graves ao considerar que 650 mil pessoas enfrentam o estágio final de doenças renais enquanto 468 mil convivem com a hemodiálise.

Daniela (em pé) e Valeria  no dia seguinte à cirurgia (Foto: Arquivo Pessoal)

Valeria reecontrou a vida aos 51 anos através da também brasileira Daniela Braga, 37 anos, mãe de dois filhos. Ela soube da história de Valéria e quis doar. 

O transplante só foi acontecer após dois anos, em 7 de novembro de 2017, porque Valéria teve complicações. “Quase morri, tive que retirar os dois rins. A hemodiálise me fazia passar muito mal e, mesmo com a doadora aprovada, tive que esperar”.

Hoje Valeria e Daniela levam uma vida normal, mas Idalia continua na luta e com o sorriso no rosto promete não desistir.

Além de Daniele, ela tem esperança de que outras pessoas se apresentem para doar. “Peço muita a Deus para interceder por mim e que seja feita a vontade Dele”, conclui a paulista.

SERVIÇO: Para saber se você pode ser um doador, ligue para People Who Make a Diference no (321) 527-4593 ou (407) 739-0612.