EUA barram entrada de dezenas que fugiam de estragos de furacão nas Bahamas

Vítimas de Dorian tiveram que deixar barco com destino aos EUA por questões imigratórias (Foto: NYT)

MIAMI – Dezenas de moradores das Bahamas que esperavam buscar refúgio nos Estados Unidos e deixar as ilhas devastadas pelo furacão Dorian na semana passada foram expulsos de uma balsa que seguia para a Flórida na noite de domingo, depois de um anúncio a bordo de que qualquer pessoa sem visto válido “teria problemas” no porto americano.

Vídeos do incidente se espalharam rapidamente nas redes sociais, com passageiros frustrados lamentando que os protocolos padrão — que no passado permitiram que os bahamenses entrassem nos Estados Unidos sem visto, desde que tivessem passaporte e  certidão de bons antecedentes — não estavam sendo cumpridos.

“Avisaram no último minuto”, disse o passageiro Renard Oliver, que segurava uma criança no colo enquanto conversava com um repórter da emissora de televisão Miami WSVN. “É doloroso porque estou vendo minhas filhas chorarem, mas é o que é”.

Parte das Bahamas foi desvastada quando o furacão Dorian atingiu o país na semana passada. Nas ilhas, a tempestade foi classificada na categoria 5 da na escala Saffir-Simpson (intensidade máxima), e comunidades inteiras foram devastadas. Centenas de moradores ainda estão desaparecidos, e as autoridades disseram que pode levar meses para saber ao certo número de mortos, atualmente contabilizados em 45.

Oliver disse que, depois de embarcar, os membros da tripulação anunciaram pelo interfone que os funcionários da Agência de Alfândega e Proteção de Fronteiras dos Estados Unidos (CBP, na sigla em inglês) haviam telefonado e dito que qualquer pessoa sem visto precisava desembarcar do navio.

Autoridades americanas informaram que seus procedimentos para permitir a entrada de pessoas da região não mudaram. Segundo elas, ao contrário de outras operadoras de navios e companhias aéreas que conduziram centenas de pessoas das Bahamas para locais seguros nos Estados Unidos desde a chegada do furacão Dorian, os operadores da balsa não entraram em contato com a embaixada americana com antecedência para confirmar que os passageiros sem vistos atendiam aos requisitos de entrada.

Uma porta-voz disse que a agência não negou a entrada de passageiros nos Estados Unidos, mas recomendou que eles desembarcassem e entrassem em contato com a embaixada americana, porque, sem essa pré-autorização, levaria horas para que sua entrada na Flórida fosse autorizada.

Nesta segunda-feira, o presidente Donald Trump disse que seu governo está estudando a possibilidade de estender temporariamente a imigrantes das Bahamas o status de proteção, concedido a pessoas que não podem retornar em segurança aos seus países.

A balsa foi operada pela empresa Balearia, que realiza travessias frequentes entre Fort Lauderdale, Bimini e Grand Bahama — todos destinos turísticos populares. Os representantes da empresa não puderam ser contatados para comentar e não ficou claro por que o embarque de domingo aconteceu de maneira diferente do que no passado.

Peter Vazquez, um corretor de iates em Fort Lauderdale que fornece ajuda diariamente às Bahamas, disse que está trazendo sobreviventes da tempestade de volta ao sul da Flórida e que não encontrou problemas. As pessoas não eram obrigadas a ter um visto, mas precisavam fazer o check-in no momento do desembarque, onde eram processadas pelas autoridades aduaneiras, disse ele.

Em um comunicado, o senador Rick Scott, da Flórida, pediu que as autoridades do CBP e do governo das Bahamas a esclarecer as regras sobre vistos, a renunciar a alguns requisitos de visto para os bahamenses que têm família nos Estados Unidos e a estabelecer um local temporário nos portos americanos de entrada para ajudar os residentes das Bahamas através da liberação da imigração.

“Como centenas de milhares de bahamenses buscam refúgio ou começam a reconstruir suas vidas após o furacão Dorian, não podemos ter o tipo de confusão que ocorreu ontem à noite em Freeport”, disse ele.

Confusão com rota do furacão

O furacão causou ainda uma outra confusão em relação ao governo americano. O secretário de Comércio ameaçou demitir funcionários sêniores na Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera (Noaa) na última sexta-feira depois que o escritório em Birmingham contradisse Trump, informaram três fontes. O presidente americano havia afirmado que o furacão atingiria o Alabama, embora a Noaa tivesse dito previamente que o estado não corria risco.

A ameaça levou a um incomum comunicado da agência mais tarde, ainda na sexta-feira, voltando atrás em sua declaração de que o Alabama estava a salvo. A medida gerou críticas da comunidade científica, que acusou a Noaa, uma divisão do Departamento de Comércio, de estar sendo usada para fins políticos.