Comissário de Boston defende polícia em caso de prisão de hondurenho e coloca Trust Act em xeque

Comissário de Boston, William Gross (esquerda), disse que polícia não pode virar as costas mediante nenhum mandato (Foto: GMB)

BOSTON – O chefe da Polícia de Boston, William Gross, defendeu nesta terça-feira, 10, a ação dos policiais que colaboraram com as autoridades de imigração para prender um hondurenho, vítima de uma disputa trabalhista, e coloca a “cidade santuário” em risco.

Em audiência na Câmara de Vereadores, Gross agradeceu a oportunidade para mostrar o lado da Polícia de Boston que “está sendo mal vista”. “Nós apenas fizemos o nosso trabalho, não fizemos nada de errado”, enfatizou.

Segundo um processo que tramita na Justiça Federal do Trabalho, a Polícia de Boston participou da prisão de José Martin Pena Paz Flores logo após uma reunião no escritório da Tara Construction no dia 10 de maio de 2017.

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Flores, que vive há 18 anos nos Estados Unidos, estava se recuperando de uma cirurgia no femur após um acidente no trabalho e travava uma disputa judicial como a empresa para receber os benefícios do Seguro de Compensação. Em tempo: A pólice, que é obrigatória e deve cobrir todos os funcionários, independente do status imigratório, estava expirada por falta de pagamento.

Pedro Pirez, CEO da Tara Construction, alega que pediu a ajuda de um amigo, o policial Juan Seoane, porque “temia ter empregado alguém com nome falso”. A justificativa teria respaldo no fato de que o trabalhador sindicalizado aparecia na folha de pagamento como José Martins Pena Paz e no hospital foi registrado como José Flores.

O amigo do empresário notificou o colega, o detetive Gregory Gallagher, integrante de uma força-tarefa em parceria com o Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), culminando na prisão de Flores, pai de cinco filhos, no momento que ele deixava a sede da empresa.

Gross nega que a participação da Polícia de Boston neste caso tenha infringido o Trust Act, ordem municipal aprovada em 2014, que proíbe que a polícia prenda uma pessoa apenas a pedido do ICE.

Na audiência de ontem, a vereadora Lydia Edwards disse que não vê erro na ação da Polícia em checar a identidade do Flores, mas questionou por que a agência coordenou a ação com os agentes de imigração.

Gross rebateu ao dizer se a vereadora não via nada de errado, por que ela ela questionava o procedimento.

A vereadora insistiu que era importante entender qual é a realidade da Polícia quando precisa do auxílio das autoridades federais e como o Trust Act atende os objetivos para o qual foi criado, proteger imigrantes sem passagem criminal como Flores.

“O Trust Act foi criado para separar a Polícia de Boston do ICE. Se isso não está funcionando, temos que rever a linguagem da ordem”, enfatizou Lydia.

O chefe de polícia, que assumiu o cargo em agosto de 2018 depois do incidente, reconheceu que há muita confusão sobre a cooperação entre as autoridades . “Se alguém tem uma ordem de prisão e nós somos policiais não devemos virar as costas, mesmo sendo questões imigratórias. Não entendo. Estou um pouco confuso”, disse o primeiro comissário negro da capital de Massachusetts.

No mês passado quando o assunto foi noticiado pela imprensa local, o sargento John Boyle disse que a Polícia de Boston entrou no caso porque tinha informações de que o imigrante estava envolvido em atividade criminal, mas não revelou qualquer indício além da confusão com os nomes.

Gross deixou a audiência antes de ouvir o depoimento de Flores e prometeu dar mais detalhes sobre o caso em um próximo encontro.

O vereador que requisitou a audiência, Josh Zakim, disse que está na hora de rever a eficácia do Trust Act. “O presidente [Donald Trump] acabou de alterar o quadro dos funcionários de segurança porque pretende adotar uma linha ainda mais dura em relação à imigração.

E vamos sentir o impacto na nossa cidade”, observou ao comentar a demissão da secretária do Departamento de Segurança Interna (DHS), Kirstjen Nielsen, essa semana.