Brasileiros enfrentam milícias na travessia irregular para os EUA

Um grupo de cerca de 30 imigrantes brasileiros tentaram cruzar a em Sunland Park, Novo México, na fronteira EUA-México, em 20 de março de 2019, e foram entregues à CBP (Foto: AFP)

SUNLAND PARK – A política de repressão do presidente Donald Trump não intimida os brasileiros que tentam travessia arriscada da fronteira dos Estados Unidos com o México e os números multiplicaram nos últimos meses.

Segundo dados do Trac Immigration Project, da Universidade de Syracuse, o ano fiscal de 2018, de 1º de outubro de 2017 a 30 de setembro de 2018, 594 brasileiros foram processados em tribunais de imigração americanos por entrar no país “sem inspeção”, ou seja, sem fiscalização nas fronteiras.

De outubro de 2018 a fevereiro deste ano, já foram 308 processos — mais da metade, um aumento proporcional de 45,5%.

Mas antes de ir para a custódia das autoridades norte-americanas, o pesadelo pode ser ainda maior.

Segundo a revista Época, foi o que aconteceu no último dia 20 de março com um grupo de 30 brasileiros — adultos, jovens e crianças — ao tentar cruzar ilegalmente a fronteira entre México e Estados Unidos pela cidade de Sundlake no Novo México

Quem impediu que eles entrassem no país foi um fazendeiro: Jeff Allen, de 56 anos, dono de uma propriedade na fronteira sul dos EUA, justamente por onde o grupo tentou realizar a travessia.

Allen é membro Constitutional Patriots New Mexico Border Ops Team, uma milícia armada que pretende patrulhar a fronteira até que Trump cumpra a promessa de campanha e construa o muro.

Allen entregou os brasileiros para a Patrulha de Fronteira (CBP) e, depois, ao Serviço de Imigração e Controle de Alfândega (ICE), que deve dar seguimento ao processo de deportação.

Quando questionado, o Ministério das Relações Exteriores afirmou que a “informação solicitada [sobre a condição do grupo] não se encontra disponível”.

Rotina
As patrulhas texanas de Rio Grande e El Paso são as que, historicamente, realizam a maior parte das prisões nas fronteiras. Elas contam, cada vez mais, com o auxílio de milícias, grupos armados que vigiam pontos na fronteira com os quais estão familiarizados ou onde sabem que são rotas de imigrantes.

“Eles procuram pelos imigrantes seja vasculhando a área a pé ou com veículos. Usam binóculos, drones e outros equipamentos”, explicou Heidi Beirich, diretora do Intelligence Report da Southern Poverty Law Center, que monitora a direita radical nos EUA.

“Seus membros são, geralmente, de classe média e usam sua renda para comprar armas. O recrutamento se dá principalmente por redes sociais. A UCP, que deteve o grupo de brasileiros, não se autoproclama uma milícia, mas tem várias características relacionadas”, contou Heidi. “Eles são contra imigrantes e adotam teorias de conspiração sobre uma suposta ‘invasão’ de estrangeiros nos Estados Unidos.”

A UCP também vai além de detectar migrantes e denunciá-los a agentes de patrulha de fronteira. Relatos de abuso e tortura envolvendo grupos milicianos não são raros. “Vídeos on-line mostram que eles estão perseguindo ativamente imigrantes no deserto”, acrescentou Heidi

O grupo é liderado por um homem chamado Larry Hopkins, que usa os nomes fictícios John Horton ou Johnny Horton Jr. Ele foi condenado por múltiplos crimes no passado, incluindo os crimes de falsidade ideológica, passar-se por policial e posse ilegal de armas durante liberdade condicional.

O líder da UCP afirma estar em contato direto com o presidente americano Donald Trump e que o aconselha sobre segurança fronteiriça. Ele conseguiu, em um crowdfunding (vaquinha on-line), mais de US$ 14 mil para financiar o grupo e também dezenas de sulistas americanos dispostos a tomar conta dos limites territoriais do país.

(Com informações da Época)