Brasileiros contam experiência de emigrar para os EUA em meio a pico de detenções

O mineiro Helison Alvarenga conversa com voluntárias do centro comunitário de Stoughton, cidade onde vive nos Estados Unidos (Foto: Steven Senne/AP Photo)

BOSTON – Números divulgados nesta semana pela autoridade norte-americana de Alfândega e Proteção de Fronteira (CBP, na sigla em inglês) mostram que cerca de 18 mil imigrantes brasileiros foram detidos nos Estados Unidos entre outubro de 2018 e setembro de 2019. Trata-se, segundo a agência Associated Press, de um salto de 600% em relação ao recorde anterior, de 2016.

Uma reportagem da AP conversou com brasileiros que viajaram aos Estados Unidos no último ano para tentar uma nova vida. O mineiro Helison Alvarenga vive há alguns meses no estado de Massachusetts — o segundo com mais imigrantes do Brasil, atrás apenas da Flórida — e relatou à agência que ganha três vezes mais do que recebia em Minas Gerais como mecânico.

“As coisas vão mal no Brasil. O único jeito de ter uma vida melhor é fazendo faculdade, mas fazer faculdade é muito caro”, disse Helison à AP.

Ainda assim, o mineiro admite que o inverno do nordeste norte-americano tem sido pior do que o esperado. “Dá saudade de casa. Sinto falta do sol e do calor”, disse à AP.

“Se eu ganhasse em uma loteria, voltaria amanhã”, afirmou.

Migração econômica

As razões para pessoas como Helison tentarem a sorte nos Estados Unidos estão mais relacionadas a problemas financeiros, falta de oportunidades e violência urbana. Porém, o advogado brasileiro Luciano Park — formado em Boston e que hoje trabalha justamente com imigração — disse à AP que essas razões não bastam para que cidadãos do Brasil tentem o chamado “pedido de asilo”.

Nos Estados Unidos, o asilo é concedido a pessoas que alegam temor de perseguição no país de origem. Segundo Park, violência doméstica costumava ser uma razão para autoridades concederem o status de asilado, o que mudou com as políticas mais duras do governo de Donald Trump.

“Tem ficado mais difícil de argumentar”, disse Park à AP.

O chefe em exercício da CBP, Mark Morgan, disse que estuda a possibilidade de encerrar os pedidos de asilo de migrantes de regiões que incluiriam o Brasil. Segundo ele, cidadãos brasileiros, africanos e de outros países como o Haiti seriam submetidos às mesmas regras endurecidas para imigrantes da América Central.

As regras do governo norte-americano para cidadãos de Honduras, Guatemala e El Salvador estabelecem que imigrantes requerentes de asilo esperem meses no México enquanto o processo é analisado — e, quase todas as vezes, rejeitado.

Com os brasileiros, as autoridades os mantêm detidos por um curto espaço de tempo até serem mandados a uma rede de abrigos. Lá, permanecem por alguns dias até obterem fundos para se deslocar a outras cidades norte-americanas enquanto aguardam o processo.

Google Tradutor na fronteira

Criado perto da fronteira entre Estados Unidos e México, o gerente de hotel Joe Luis Rubio nunca pensou que ele tentaria, diariamente, manter conversas em português. Porém, com a chegada recorde de brasileiros que tentam imigrar para os EUA, ele precisou se acostumar com o idioma para atender à nova demanda no estabelecimento em que trabalha em El Paso, cidade fronteiriça no Texas.

“Graças a Deus existe Google Tradutor, ou estaríamos perdidos”, diz Rubio.

Entre outubro de 2018 e setembro deste ano, cerca de 17 mil brasileiros entram nos EUA por El Paso, que faz fronteira com a mexicana Ciudad Juarez. Segundo dados da CBP obtidos pela Associated Press, 95% das apreensões de cidadãos do Brasil ocorreu na região da cidade texana.

Brasileiros nessas situações costumam se hospedar no pequeno hotel onde Rubio trabalho. A reportagem da AP visitou uma mulher de 42 anos, do Maranhão, que estava com um filho de 16. Ambos esperavam um voo que os levariam à Filadélfia.

À agência, a mulher contou que passou com o adolescente quatro dias em uma tenda montada em um campo de detenções da CBP.

“Foi miserável”, contou.