As três características que fazem de alguém uma boa pessoa

NOVA YORK – Você tende a ver o melhor das pessoas ou presume que os outros estão querendo te trapacear? Prioriza a honestidade na conversa ou prefere manter o charme a qualquer custo?

Suas respostas determinam em parte o quanto você é um “santo cotidiano”, de acordo com um grupo de psicólogos que surgiu com uma nova maneira de categorizar traços de personalidade benéficos.

Ajuda a entrar nesse grupo se você vê os humanos, e a humanidade em geral, como fundamentalmente bons – e os trata dessa maneira também.

Duas décadas atrás, psicólogos surgiram com a agora infame “tríade obscura”dos traços de personalidade para entender pessoas como as que não pensam antes de trapacear em um teste ou aquelas que caem em cima de alguém mais fraco.

Desde então, os pesquisadores se apoderaram desse trio – narcisismo, maquiavelismo e psicopatia -, relacionando-o a uma variedade de coisas, como sucesso no trabalho, problemas de relacionamento e até mesmo os “sete pecados capitais”.

É exatamente por isso que Scott Barry Kaufman, psicólogo da Universidade Columbia, em Nova York, decidiu que era hora de recompor o equilíbrio em favor do lado positivo de nossas vidas.

“Fiquei bastante frustrado com o fato de as pessoas serem tão fascinadas com o lado sombrio, enquanto o lado da luz da personalidade estava sendo negligenciado”, explica.

Como sua contraparte sombria, a “tríade de luz” investigada por Kaufman e seus colegas compreende três traços de personalidade.

Cada um deles destaca um aspecto diferente de como você interage com os outros: de ver o melhor nas pessoas a ser rápido em perdoar, do aplaudir o sucesso dos outros a ficar desconfortável manipulando as pessoas.

Afinal, que características são essas?

O que os ‘santos do cotidiano’ precisam ter

O primeiro traço, o humanismo, é definido como acreditar na dignidade inerente e no valor de outros seres humanos.

O segundo, o kantismo, recebe o nome do filósofo Immanuel Kant, e neste caso indica tratar as pessoas como fins em si mesmas, não apenas como peões involuntários em seu jogo pessoal de xadrez.

Finalmente, a “fé na humanidade” é sobre acreditar que os outros humanos são fundamentalmente bons e não querem tirar vantagem de você.

William Fleeson, psicólogo da Universidade Wake Forest, nos EUA, diz que as três características se encaixam bem na pesquisa existente sobre o que faz de alguém uma boa pessoa. Em particular, acreditar que outras pessoas são boas parece ser fundamental.

“Quanto mais alguém acredita que os outros são bons, menos sente a necessidade de proteger-se e de punir os outros quando estes fazem algo ruim”, detalha.

Os “santos do cotidiano” não estão apenas beneficiando o resto do mundo com sua gentileza. Kaufman descobriu que aqueles que têm uma alta classificação nestes traços apresentam maior autoestima, senso de identidade e satisfação com seus relacionamentos e com a vida em geral.

Uma série de características fortes também se mostraram ligadas a pontuações altas, como curiosidade, entusiasmo, amor, bondade, trabalho em equipe, perdão e gratidão.

Um pouco de luz, um pouco de sombra

Em vez de ser apenas luz ou obscuridade, a maioria das pessoas será uma mistura. Você pode fazer um teste que mostrará seus níveis de personalidade leve e sombria no site de Kaufman.

Enquanto alguém que tem uma pontuação alta em traços de personalidade leve provavelmente terá uma pontuação baixa para os obscuros, ficou claro durante os estudos de Kaufman que estas facetas não estão realmente em oposição direta uma à outra, apoiando a ideia de que somos todos um pouco ambos.

Isso pode ser uma coisa boa. Aqueles com personalidades mais sombrias tendem a ser mais corajosos e assertivos, por exemplo – dois traços que são úteis quando se tenta colocar as coisas em prática. Personalidades mais obscuras também estão correlacionadas com a criatividade e a habilidade de liderança.

“Eu acho que essa dualidade está em todos nós”, diz ele. “Abraçar o lado obscuro é realmente uma coisa muito boa, e aproveitá-lo de forma saudável por seu potencial criativo é mais importante do que fingir que ele não está ali.”

Mesmo se você se virar para o lado da luz, isso não significa que sua vida será toda iluminada.

Uma faceta do kantismo, por exemplo, é o preceito de permanecer autêntico, mesmo que isso possa prejudicar sua reputação. Alguém que vive assim poderá, em nome de permanecer fiel a si mesmo, acabar em uma posição controversa.

“Às vezes, a autenticidade exige tomar uma posição”, diz Kaufman. “Mas você não está fazendo isso de uma maneira que está tentando manipular alguém.”

Tomemos o exemplo de Dorothy Day, uma jornalista e ativista americana que morreu em 1980. Ela dedicou sua vida à justiça social e à assistência aos pobres, fundando abrigos, por exemplo. Por sua trajetória de doação, alguns defendem que ela seja canonizada pela Igreja Católica.

Mas ela nem sempre teria sido considerada agradável por todos.

“Ela era extremamente moralista, viveu na pobreza e muitas vezes perdeu amizades por conta de sua postura”, diz Fleeson.

Aqueles com personalidades mais leves também tendem a se sentir mais culpados – o que não é necessariamente uma coisa ruim, diz Taya Cohen, da Tepper School of Business da Universidade Carnegie Mellon, nos EUA.

Há uma diferença entre sentimentos saudáveis ​​de culpa desencadeados por nossas próprias ações e ruminações nocivas que poderiam ser classificadas como vergonha, diz ela.

“Mesmo que o sentimento de culpa seja desagradável, em geral, ele ajuda as pessoas a se comportarem de maneiras mais apropriadas”.

De fato, a pesquisa vinculou a tendência à culpa a uma variedade de comportamentos positivos em diferentes aspectos da vida das pessoas. Por exemplo, se você derramasse acidentalmente vinho sobre o tapete novo e claro de um amigo e depois movesse uma cadeira para cobrir a mancha, como você se sentiria no dia seguinte?

Metamorfoses ambulantes

Aqueles que sentem que agiram mal são mais propensos à culpa. Mas essa culpa é, na verdade, apenas sentir uma profunda responsabilidade pelos outros, diz Cohen – uma luz interior que nos guia para fazer a coisa certa.

Se você tem medo de não se sair muito bem no teste da “tríade de luz”, considere que nossas personalidades são mais mutáveis ​​do que você imagina.

Embora o trabalho feito por Fleeson e seus colegas tenha constatado que as pessoas tendem a ser moralmente consistentes a curto prazo, durante um período mais longo, pode haver espaço para manobras.

Day – que está a caminho de se tornar uma santa oficial – acreditava que alguém poderia escolher tornar-se uma pessoa melhor também, forçando-se a mudar de forma lenta mas consistente ao longo do tempo.

Enquanto ainda não há pesquisas para mostrar que a sua ideia funciona para todos, há evidências de que a personalidade é um tanto maleável ao longo de nossas vidas.

“Eu acho que a personalidade é apenas uma combinação de hábitos, estados de pensamento, ação e sentimento no mundo, e que podemos mudar esses hábitos”, diz Kaufman.

Estudos também mostram que a tendência à culpa tende a aumentar ao longo da vida adulta, dos 20 aos 60 anos, então há uma chance de você acabar se tornando mais “santo” à medida que envelhece, quer você goste disso ou não.

O trabalho de Kaufman com a tríade de luz traz uma mensagem esperançosa sobre os humanos em geral. Mais de mil pessoas realizaram os dois testes para revelar seus traços de personalidade leves e obscuros – e em média, os testados inclinaram-se mais para o lado da luz.

“Isso é uma espécie de verificação de que, apesar dos horrores do mundo, as pessoas são por padrão basicamente inclinadas para o lado da luz”, aponta.

Se mais trabalhos sobre esta tríade encontrarem a mesma coisa, isto reforçará a ideia de que, apesar de todas as nossas falhas, as pessoas são basicamente boas.

Talvez isso seja suficiente para estimular a fé na humanidade de qualquer um que esteja oscilando entre o lado sombrio e o lado leve de sua personalidade, e incline a balança a favor da “santidade” cotidiana.